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santa maria, rio grande do sul, Brazil
fui parido no décimo segundo dia de um setembro ameno, no ano de mil novecentos e setenta e sete. segundo me contam, o episódio não alterou muito o mundo a minha volta: antes de mim, as estações do ano já encontravam - se dispostas na ordem que conhecemos, os cães sempre alucinavam em agosto e as armas brancas eram, dentre todas, as preferidas dos assassinos de sangue frio.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Desnomeio

Províncias de gelo e mesmo assim até que se fôssemos mais jovens (bobagem, ela parece quase tão menina quanto em mim já pesa um século sobre cada pálpebra), mais jovens e menos, como se diz, menos afeitos ao vício de fugirmos pelo canto dos olhos (os dela se me esforço um pouco posso afirmar com toda certeza que são cinzentos ou da cor de certos gatos que me assombravam a infância, mas se me esforço mais um pouco daí tenho outra certeza, que nunca prestei muita atenção naqueles olhos, não que nunca, mas nem sempre isso de olhar nos olhos me convenceu de alguma coisa), e eu não hesitei em dizer lembra como você cantava bem?, como se falássemos de um tempo tão remoto, tão antes de tudo, que agora em absoluto estaríamos livres da nossa própria desconfiança (primeiro eu fiz questão de assobiar com cuidado minucioso cada nota que lembrei, que eu pensei lembrar, da única música que um dia - pense em uma tarde desbotada e duas vozes tímidas como um espelho embaçado - a única que um dia eu e ela, mas só por acaso, cantamos quase afinados, a cidade era outra, outra cidade a exigir que eu soubesse seu nome pela manhã, no fundo só mais uma, no fundo de mais uma e eu acordando sem a mínima intenção de fingir saber o nome (agora eu tinha mais idade que aparento, mais medo que aparento, e sobre o tempo prefiro nem falar) dela me bastam uma ou duas ruas a me quebrar os itinerários, mais que isso seria pedir o que nem preciso, e ando numa economia de luxos, sabem, de inutensílios, que por ora só os goles que me dissolvem as pedras, nada demais, nada de muito, vocês conhecem muito bem a história: ele só queria, ela não imaginava, ele insistia, ela ela ela, parece até um louco da rua, quando menos se espera tudo outra vez (eu disse lá no começo que vocês conheciam essa história, eu pedi que confiassem), as pálpebras não eram para estar cansadas sob a densa montanha dos séculos?, pois não estavam, e eu abri muito os olhos para ter certeza que aquelas mãos suspensas no ar entre nuvens de fumaça eram o convite que eu adivinhei duas tragédias atrás.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Exercício de datilografia

Hora dessas

vontade de não

vontade de nem

e por um punhado de nada

pôr tudo a perder.

Ora essas

que nem sabem de mim

que nadam e esquecem de mim

é que em mim correm nadas maiores.

Ora, as horas

que me importam as horas

tenho pouco medo e ainda menos dinheiro

quero ver é coragem pra dizer em voz alta.

Há horas sou pássaro e vontade de passar.

Agora, ora, é hora.

Vou voar.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Malícia

Os acasos quando batem à porta trazem um sorriso deslavado.

Do que se riem, esses pequenos destinos medonhos?

Vamos dizer que seja cruel toda ameaça de contentamento; talvez seja isso mesmo.

Cruel como um deus-criança brincando de ofertar venenos à preço de liquidação.

Vamos dizer (baixinho, num quase sussuro) que a língua desobedece a lógica se desejando o fel.

Prova-o: é doce.

Nunca vamos saber a precisa equação do assassinato sem culpa.

Matamos e depois vamos dormir, é simples como mitigar a sede com um gole farto.

Ou matamos e nos sabemos mortos ali, no sangue que corre.

A flecha atravessada no peito do outro, doendo aqui nesse peito que no entanto não sangra.

Assassinado, intacto.

Tudo, tudo vertigem de estar sonhando em voz alta as coisas de sempre.

De saber de cor os desenhos da memória e do futuro (são grandes carrosseis girando parados numa foto à cores).

E depois não se explica a maldição de acordar com o acaso batendo à porta outra vez, ventura danada.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Do outro lado da rua tem um sobrado

Que pensaram quando aos poucos o silêncio crescia entre eles?

O que teriam dito se numa tarde-noite a saudade de outras janelas?

E da comida intocada no prato, e de um vento a entortar o fino caule da amoreira, que diziam?

Se pela manhã a brancura dos lençóis raramente desarrumados, naquela casa sem sono, diziam algo? Teriam um ódio gotejando escuro ou vestiam o mármore da indiferença?

Diz-se: de cada um o diabo rouba um detalhe.

E dá-se muito também o caso de enganarmos o futuro. Prevê-lo em seus humores, mas assentir com um sorriso verde-água. Que tanto faz.

Qual os homens quiseram, a casa erguida para quem virá, as intactas louças guardadas à espera: um abismo decorado em azulejos portugueses.

A chuva que nem chegava a tocar o agreste do corpo, mas espiada pela vidraça parecia cair para um fim único, secreto.

Diziam talvez, mas não viremos a saber, que há sempre um tempo de coser e um tempo de rasgar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Águas fundas, tempos dormentes

Quando as cidades sem nome e eu tínhamos um nome

esse nome decerto se dizia em voz baixa

como se faz com essas mandingas de amor atadas ao pulso.

De triste mesmo tinha o caso de sermos mais carta do que carne:

mais vento entre os dedos do que

punhados de terra e água,

mais acaso do que casa com sala e cozinha.

Mesmo assim nas dormências do mundo éramos uma nudez de olhos.

E da pele vez ou outra vertia uma escureza, que também falta lua ao rumo dos bichos.

Quando as cidades tinham janelas que davam para um rio,

e o rio um riso que dava para um barco

parecia sempre que a gente podia contar os passos até ali: o outro lado da rua,

a margem donde ninguém nos busca(ria).

Os escondidos cantos quando sonhamos o cheiro das pupilas.

Deu hoje de noite uma saudade de equilibrar, devagarinho, os pés

sobre o chão incerto da jangada.

(as ondas não podiam derrubar a gente no mar morno da noite)

E saber assim com a alma meio apertada de nós

que afinal de contas

não estaria nada mal pisar na água sem afundar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Para o bem de deus

Para se fazer das pedras a espuma

a paixão mais inútil espera

rebentando de tanto fruto sob a sombra rara

- bem que podiam ter inventado um deus que sonhasse.


Ou que as ondas viessem na areia rezar ao teu colo.


Pelas janelas movediças linhas, anoitecendo de rigores e só

aquela última e desamiga cena de uma ceia magra.


Coube ao negrume tecer as velas, arfando no quieto quieto mar sem fim

como um criado a quem restasse arder com mãos impuras.

Podiam ter inventado um deus que morresse de um mal menor.

Como o ciúme.


No cuidado ao dasatar pés e mãos, antes entregues a ti, nem isso

nem a isso mais se presta o lamento.

Para inverter os encantos é a pele que se descobre faceira, aliviada, alguém morreu.


Para o bem de deus evitaram que ele um dia fodesse olhando nos olhos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Costa doce dos quebrantos

Dois pátios.
Sei que transtornas as poças
ou o lamento de bois a tardar, escassez sim de ti e de mim.
De bichos amontoados a sovar o tempo
e relva sem nome a grassar porque sim, porque respiras no fundo.

No fundo da coisa, emboscada, a memória.

Duas putas, um nome igual ao da outra
e pra não dizer eu um terceiro simula
- aqui com um mundo de teatros sem gente: vazios,
beira da era, do gozo que é raro.

Sombra do mato, costa doce, erva mansa.

Fui de quebrantos para sorvendo teu sono, tua teta
- moça, que é que te faço que é bom de querer?
A moça não diz e a morte sorri, pressuposta

num figo maduro.

Na vida, intervalo entre dois nadas,
de fuga e de cavalos que salivam os séculos
essa febre de canoas emborcadas.

Tudo há de ser na lua certa.

Não é o tempo sob teus pés: mas a língua modesta a dizer litorais.